O carinha dourado

por Eduardo Nozari

Uepa! Pelo jeito vou inaugurar os trabalhos por aqui, abrir a venda, tirar o pó, lançar o bote, estourar a champagne… Enfim, sacar.

Bom, qualquer iniciado na apreciação de filmes sabe que um texto sobre esse assunto escrito ali pelo finalzinho de fevereiro tem tema padrão: o Oscar. Certo? Errado! Mas, calma, este aqui vai ser sobre o Oscar mesmo… Aliás, é interessante perceber como no meio cinéfilo e da crítica cinematográfica (nos escalões mais eruditos, principalmente) sempre que se fala de Oscar é meio que em tom de vergonha ou desculpas. Concordo que a festa de Hollywood é pra lá de manjada (os filmes ganham mais por suas campanhas de bastidores do que exatamente por seus méritos, muitas categorias não têm critérios claros, etc.), mas defendo que o Oscar tem uma característica fatal que atrai todo mundo: a competição! Ao contrário dos festivais, onde os concorrentes são quase sempre inéditos, no Oscar podemos “torcer” por filmes que vimos e que gostamos (ou não).

Aqui neste post vou falar um pouquinho sobre cada um dos 10 filmes que concorrem a melhor filme e também sobre as demais categorias principais. Para mostrar que tenho propriedade sobre o que falo – viva o egocentrismo! – aqui está a minha folhinha onde marquei os filmes aos quais assisti.

Claro que não vi tudo, mas o suficiente para poder dar uns pitacos. Então vamos lá, um por um:

Cisne Negro: com certeza o filme mais ousado e artístico entre os 10 indicados. Conseguiu usar muito bem os recursos da narrativa cinematográfica (roteiro, edição, fotografia, atuações…) para contar o caminho percorrido por uma bailarina desde o momento em que é escolhida para o papel principal de O Lago dos Cisnes até a estréia da peça. Um filmaço. Na minha opinião, o melhor.

O Vencedor: não sei exatamente qual a atração que os americanos têm por filmes de boxe. Rocky, Touro Indomável, Menina de Ouro, Cinderella Man… Neste aqui a história é de um lutador que precisa abandonar a mãe-agente e o irmão-técnico para buscar o sucesso nos ringues. É um bom filme, na verdade, com ótimas atuações dos coadjuvantes, mas que não deve ser lembrado por muito tempo.

A Origem: o filme de Christopher Nolan foi lançado meio fora de época (para quem não sabe, nos EUA os filmes que visam o Oscar normalmente são lançados em dezembro) e por alguns meses foi considerado favorito. Tem uma trama  mirabolante que deu certo – pessoas que entram nos sonhos das outras para tentar mudar a realidade –  o que prova que o roteiro é bem feitinho. Mas para mim este aqui poderia ser facilmente substituído por Ilha do Medo, filme que não emplacou na temporada de prêmios.

Minhas Mães e Meu Pai: é a comédia do ano no Oscar. Assim como Juno, Pequena Miss Sunshine e Amor sem Escalas, é um filme leve e agradável de se assistir, apesar de tratar de um semi-tabu: os filhos de um casal de lésbicas decidem procurar quem é o seu pai (o doador de esperma das suas mães). Segue um pouco a fórmula das comédias românticas, com brigas e reconciliações, o que, para mim, é deixar-se tornar previsível.

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INTERVALO: 1) Como também vou falar de tênis por aqui vale comentar o jogaço que acabou de acabar. David Ferrer venceu Nicolas Almagro por 7/6, 6/7 e 6/2 na final do ATP 500 de Acapulco. Realmente muito bom o jogo, com rallys longos, esquerdas fenomenais do Almagro e buscadas incríveis do Ferrer. 2) Moacyr Scliar morreu agora há pouco. Acho que nunca li nenhum livro dele, mas simpatizava. Pena.

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O Discurso do Rei: esse é outro filme muito bom. Ao contrário do que alguém falou na Zero Hora, não é uma obra esquecível. Apesar de contar a história verídica do Rei George VI tentando superar a sua gagueira com a ajuda de um excêntrico especialista às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o verdadeiro tema do filme é a amizade. As atuações do elenco principal são realmente muito boas e é interessante adentrar na vida íntima da fria realeza britânica. O Discurso do Rei vem ganhando a maioria dos prêmios dos sindicatos nos Estados Unidos e é o favorito para levar o Oscar de melhor filme.

127 Horas: mais um título bastante interessante e que, confesso, me surpreendeu. O filme narra as tais das 127 horas em que um montanhista ficou preso em uma fenda no deserto de Utah, nos Estados Unidos. Como quase todo o filme se passa em alguns poucos metros quadrados entre rochedos enormes é de se aplaudir o trabalho do diretor Danny Boyle, que conseguiu ótimos ângulos e elementos narrativos bem legais para não deixar o público entediado. A atuação-monólogo de James Franco também é muito boa – ele ganhou o Independent Spirit Award de melhor ator ontem – visto que é dificílimo sustentar um filme sozinho.

A Rede Social: este talvez tenha sido um dos filmes mais falados nos últimos meses. Era considerado favorito ao Oscar até ali pela época dos Globos de Ouro, mas então começou a perder território para O Discurso do Rei. Tem um roteiro bem bom, que conseguiu transferir para as telas um episódio bem recente: a criação do Facebook. O filme é a prova de como as coisas estão cada vez mais rápidas hoje em dia. O site surgiu há menos de 10 anos, tem milhões de usuários, o seu criador não tem nem 30 anos… Os acontecimentos históricos de filmes costumavam datar de outros séculos!  Mas o fato é que A Rede Social é um filme apenas interessantezinho e que, para mim, superdimensiona algo banal. Apesar do sucesso, acho que o Facebook não sustenta a trama de um filme. E como A Rede Social não tem grandes qualidades enquanto arte cinematográfica, ficou por isso mesmo.

Toy Story 3: mais uma vez contrariando o pessoal da ZH, não acho este um grande filme. É legal, bem feitinho, diverte, mas… só. Tenho a impressão de que a franquia Toy Story é da época em que desenho/animação era destinada apenas aos pimpolhos e não tinha o mesmo apelo junto ao público adulto que vemos nos filmes mais recentes: Ratatouille, Wall-E e Up, por exemplo.

Bravura Indômita: os irmãos Coen dessa vez resolveram fazer um filme mais convencional e deu bastante certo. Não sou expert em faroeste, mas acredito que Bravura Indômita tenhas as características clássicas do gênero: o bem e o mal, a busca por justiça, ação, tiros e conflitos internos nos campos do velho oeste. Essa pelo menos é a impressão que o filme me passou, que se trata de um faroeste à maneira clássica. O longa tem atuações muito boas de Jeff Bridges, no papel de um velho pistoleiro sem medo de nada, e de Hailee Steinfeld, que interpreta a menina mais corajosa do Oeste, dona da tal bravura indômita.

Inverno da Alma: buenas, esse é o filme que mais destoa entre os 10 indicados. Conta a história de uma guria que precisa achar seu pai e convencê-lo a se entregar à polícia, já que ele tinha dado a casa da família como garantia de fiança. Ele destoa porque é um filme muito denso, pesado, com uma carga dramática bem alta que parece se arrastar até que chegue o final. Em outras palavras, para uma pessoa despreparada, é um filme chato (chato não é a mesma coisa que ruim). Você precisa estar atento para ir entendendo a trama e o discurso do filme, que não é dado de bandeja.

OUTRAS CATEGORIAS

Melhor diretor: meu voto iria para Darren Aronofsky, por Cisne Negro. Fazer um filme daqueles requer maestria das boas. Tom Hooper, de O Discurso do Rei, também fez um ótimo trabalho na direção de atores, mas parece que o cara da vez vai ser o David Fincher. Confesso que não vejo um grande trabalho de direção em A Rede Social e acho que Fincher teria merecido mais por Clube da Luta ou O Curioso Caso de Benjamin Button, por exemplo.

Melhor ator: o rei gago de Colin Firth é impressionante e vai ganhar com mérito. Nessa categoria só não consegui ver o Javier Bardem, em Biutiful, mas não devem haver supresas.

Melhor atriz: Natalie Portman! A guriazinha de O Profissional já demonstrava talento desde aquela época, mas chegou ao auge com Cisne Negro. Assim como todo o filme, só cai a ficha da excelência da atuação dela ao subir dos créditos, mas daí não tem mais volta: você está conquistado.

Melhor ator coadjuvante: o favorito parece ser Christian Bale, por O Vencedor, o que é mais que merecido. É uma atuação muito realista, apesar de o personagem não ser tão natural. Quem poderia surpreender nessa categoria é Geoffrey Rush, por O Discurso do Rei.

Melhor atriz coadjuvante: acho que é a categoria de atuação mais intrincada. Melissa Leo (O Vencedor) era a favorita absoluta por, assim como Bale, interpretar alguém que poderia perfeitamente ser sua vizinha. Só que nas últimas semanas ela andou fazendo campanha por conta própria em Hollywood – comprou espaços em revistas se autopromovendo – e parece que isso não foi muito bem digerido por lá. Hailee Steinfeld, de Bravura Indômita, mereceria muito ganhar, mas ainda tem Helena Bonham Carter, de O Discurso do Rei, que parece ter crescido nas cotações agora no finalzinho. Difícil essa.

Roteiros: palpito que o prêmio de roteiro original irá para O Discurso do Rei (A Origem, talvez) mais pelo entusiasmo que há em torno do filme. O de roteiro adaptado deve ir para A Rede Social, mas realmente não li o livro no qual foi baseado para poder comparar.

E é isso! Bom Oscar a todos e façam suas apostas! Volto na segunda para comentar alguma coisa da cerimônia.

Sobre eduardonozari
Excelente jogador de tênis, crítico de cinema renomado, fotógrafo brilhante, chefe de cozinha profissional e jornalista padrão BBC.

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