Livros e cinema: uma conversa com Ana Maria Bahiana

por Eduardo Nozari

Há 3 anos atrás fiz um curso de interpretação de cinema em Porto Alegre, ministrado pela jornalista Ana Maria Bahiana*. O curso foi muito bom e, como eu estava a poucos metros de uma figura ímpar do jornalismo brasileiro (momento puxa-saco), não pude perder a oportunidade de roubar uma entrevista. Eu e duas colegas de aula, então, conversamos com ela sobre literatura e cinema, mas acabei nunca publicando o material no meu blog da época e acho que agora é uma boa época para fazê-lo: amanhã estréia no Brasil Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II, último capítulo de uma das mais populares transposições livro->filme já vistas. Como foi feita em 2008, claro que a entrevista não fala sobre HP7, mas traz elementos importantes para saber mais sobre as adaptações. Segue:

Tu tens vasta experiência em cinema, já escreveu livros e também já escreveu roteiros. Qual a diferença do processo de criação de um livro e de um roteiro? 

Bom, a meu ver a diferença é que no livro você escreve imaginando que o filme vai ser feito na cabeça do leitor. Você pode deter-se em detalhes, em um mundo interior dos personagens. Já no filme você não tem esse tempo. O tipo de narrativa de um filme é completamente diferente do tipo de narrativa de um livro, o que torna a adaptação literária para cinema uma coisa muito difícil. Quando você escreve um argumento, ou um roteiro, você tem que ter um arco da narrativa que seja claramente explicitado em uma hora e meia ou duas. Você só tem aquele tempo para evoluir seus personagens e você só tem aqueles recursos para mostrar o mundo interior deles. Então são limitações que te dão uma estrutura típica do roteiro: você não tem o luxo da não-ação. No livro você pode ter a não-ação o quanto você quiser, pode dedicar páginas e páginas a nada acontecer, tudo em termos de pensamentos e sentimentos. Para mim essa é principal diferença: no livro, o filme tem que ser feito pela nossa cabeça, no filme em si o roteirista tem que ter esse trabalho.

Então, sob essa ótica, os roteiros originais seriam mais eficazes?

Aí depende de quão boa ou ruim é a adaptação. Eu sempre costumo dizer que o roteiro original é muito mais fácil de ser feito do que uma adaptação literária, pois você tem o controle completo de todos os elementos da narrativa. Como falamos, o livro é mais profundo de uma maneira, mas uma boa adaptação ou um bom roteiro também pode ser profundo, só que de outra maneira. O que uma boa adaptação faz é transformar tudo aquilo que é expresso em palavras em imagens. A boa adaptação não se limita a ser uma “contação” de histórias: “agora vou contar a história do livro com os recursos do livro”. Isso seria uma adaptação chata, a boa adaptação é: “eu vou trazer o mundo do livro em imagens. Eu vou informar os personagens, o que eles são, qual é o mundo deles, qual é a cabeça deles”. Tudo isso com imagens em ação e não com palavras. Um contra exemplo: O Código Da Vinci. O que é aquilo? É o tipo de adaptação ruim, de um livro que já não é grande coisa. Mas pelo menos o livro é uma coisa divertida, se bem que todos os livros do autor são iguais. Foi uma adaptação perfeitamente preguiçosa aquela. O roteirista (Akiva Goldsman) não teve muita originalidade. Aliás, ele é famoso por não ter muita originalidade, mas eu acho que se somou a isso o fato de que foi feito rápido, às pressas. Eles queriam aproveitar o impacto do livro. E um roteiro é uma coisa muito complicada de se fazer, é uma coisa que demora.

As pessoas geralmente reclamam que os filmes adaptados não são tão bons quantos os livros, mas grandes clássicos do cinema são adaptações de livros e acabam sendo mais conhecidos e renomados que os próprios livros. Por que tu achas que isso acontece?

Um livro é um livro e um filme é um filme.  Eu acho que se você for ao cinema esperando ter a mesma experiência do livro, você vai se frustrar em 99% das vezes. São coisas, são criaturas completamente diferentes. O bom filme adaptado sobrevive não necessariamente porque ele é uma boa adaptação, mas porque ele é um bom filme. Ele se sustenta como uma história filmada, contada com imagens. O filme é isso: imagem, ação e movimento. Texto, no cinema, na verdade é acessório. As pessoas confundem muito roteiro com diálogo. Roteiro é estrutura e não diálogo. Você pode ter um roteiro maravilhoso, mas que não tenha diálogo. Há um filme lindo do Bertolucci, Assédio, que é uma história de um choque cultural entre uma menina africana e um italiano. Os dois não conseguem se comunicar e por isso a maior parte do filme não tem diálogo nenhum e, mesmo assim, o filme é belíssimo. No filme você deve contar uma história com metáforas visuais, com som, com movimento, com ação, e com o olhar da câmera, que é o olhar do diretor dialogando conosco. Se o filme se sustenta com relação a isso, o material de origem se torna irrelevante. Um exemplo: Apocalypse Now é inspirado em Coração das Trevas, mas você não precisa ter lido o livro para achar o filme uma coisa maravilhosa, pois ele se sustenta em si mesmo como um filme.

Dos filmes (adaptados) lançados nos últimos anos, qual tu achas que tenha feito bem essa transposição para o cinema?  Um que tenha cumprido bem o que o livro quis passar.

Onde os Fracos Não Têm Vez. Foi perfeita a adaptação, e boa parte desse sucesso se deve ao material original, o livro de Cormac McCarthy. É bom lembrar que o primeiro passo para se fazer uma boa adaptação é escolher um livro que, de fato, renda um filme. Muitos dos livros que a gente lê e fala “isso daria um bom filme” talvez não dêem, por serem complexos demais, por serem literários demais ou por terem informações que só podem ser manuseadas pela mente do leitor e não pela do espectador. Cormac McCarthy é um escritor que escreve sucintamente, economicamente. Escreve de uma maneira cinematográfica. Ele deixa muito a ser imaginado pelo leitor e isso, para um diretor de cinema, é perfeito. O livro dá a estrutura, dá os personagens e deixa o diretor colocar em cima o seu olhar sobre aquilo tudo: como é a cara dessas pessoas, como elas se comportam, como é o mundo onde elas andam.

E os casos em que o autor do livro também escreve o roteiro? O Mario Puzo, em O Poderoso Chefão, por exemplo…

É, mas em toda a trilogia tem muito da visão do Coppola, que fez os roteiros junto com Puzo. Visualmente, a composição daqueles personagens, o ritmo daquela narrativa é cinematográfica. E nem sempre a presença do autor é uma coisa boa, porque a criação literária e a criação cinematográfica são muito diferentes. Não é comum o autor que possa navegar por essas duas áreas criativas. Aliás, mudando um pouco de assunto, para começar eu acho que o material que melhor se presta para ser adaptado para o cinema é o conto, e não o romance ou a novela. Um filme é um conto, e duas horas é o tempo perfeito para se contar uma história nesse formato. Quando você adapta uma obra literária mais complexa a coisa se torna complicada. Você tem que fazer tantas elipses, tanto cortes, tantas simplificações que você acaba aleijando a estrutura da própria história que você está contando.

*Ana Maria Bahiana é uma das maiores jornalistas culturais do Brasil. Já escreveu em tudo que é jornal e revista, aqui e lá fora, e foi correspondente da Rede Globo em Los Angeles por 7 anos. Hoje, entre outras atividades, ela mantém um blog e é a única representante do Brasil na Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, entidade responsável pela premiação dos Globos de Ouro.

**Colaboraram Bruna Schuch e Simone Bertuzzi.

Sobre eduardonozari
Excelente jogador de tênis, crítico de cinema renomado, fotógrafo brilhante, chefe de cozinha profissional e jornalista padrão BBC.

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